segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O prefeito e as moedas – Memórias de uma Classe Média



Tenho uma ideia meio radical há tempos que diz: No Brasil, a classe proletarizada não joga xadrez - somente dama. Isto tem uma simples explicação já dita pelo próprio Renato Russo, que dizia que “alimento para a cabeça nunca vai matar a fome de ninguém”.



Claro que no contexto que ele escreveu, ele se referia ao uso de drogas na música “Conexão Amazônica”. Mas este termo pode ser usado para várias outras coisas, como por exemplo, que alimentando o cérebro das pessoas da forma que lhe convém não se mata a fome, mas “mata-se” o ódio.

De modo geral, o Brasil foi para as ruas em peso e mostrou que estava insatisfeito com os absurdos que ocorriam no país. Isto foi de suma importância para os brasileiros (acredito nisso), mas existem vários lados da moeda, sejam duas de dez centavos ou mais. O lado que vou tentar explanar hoje diz respeito à história de um prefeito.

Voltando as manifestações, estas geraram fortes ruídos em São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Minas Gerais. Também em outros estados, mas com muito mais força nos locais citados. A reivindicação principal? Vinte centavos em vista ao péssimo transporte público, taxado pela classe mais desprovida como um roubo. Realmente o valor do aumento somado ao salário mínimo e junto a uma economia inflada, fazia um pai de família deixar de comprar alguns pães a mais no final do mês.

Em resumo, o prefeito de São Paulo desdenhou - o povo gritou. Ele desdenhou novamente e o BOOM aconteceu: O Brasil em peso brigava por causa dos aumentos das passagens de ônibus.

Resultado: os prefeitos de várias capitais voltaram atrás no aumento das passagens, complementando a solução com atos de “ajustes” no transporte público e alimentando a cabeça dos usuários com a ilusão da melhoria. Como? Em São Paulo foram os corredores de ônibus pintados às pressas pelos agentes de trânsito, liberando o tráfego do transporte público consideravelmente.

O contragolpe: O trânsito se transformou em um caos urbano, ainda com os mesmos ônibus de péssima qualidade e entupidos de gado humano. Mas em uma visão ampla, é possível notar-se que está mais rápida a locomoção dos ônibus, não é? Sim, e isto é bom. É um bom alimento para a cabeça.

No mesmo passo que o valor do ônibus caiu, o consumo e o valor do combustível dos automóveis aumentaram (maior arrecadação), o IPTU dos imóveis taxados com área X+1 aumentará em 33% (mais arrecadação) e o mal estar em relação ao prefeito pela classe média apareceu. Ainda por fim, o consumo de combustível e depreciação mecânica dos ônibus caiu por terra pelo simples fato do tráfego ter diminuído. Fato interessante, não é?

Então, o que eu vejo atualmente é uma inversão do problema. É o redirecionamento de um custo (não existente) para outra população, ou seja, o aumento da taxação através de uma manobra política.

Política? Eu explico.

A proporção de usuários de ônibus é muito, se não infinitamente maior que a de usuários de carros e motos. Isto significa que a mente dessa galera foi alimentada com a ideia de que o problema foi resolvido e o Sr. Prefeito é a solução de todos os problemas de transporte público para o próximo mandato. Todos foram COMPRADOS com um pincel e tinta branca (para pintar os corredores). É a tal “melhoria do cocô”.

Seguindo esta simples análise, é tão simples quanto o “Bolsa Família”, só que em uma ordem contrária do texto de Renato: O alimento foi para a barriga (matar a fome) e não para a cabeça, ou seja, compra-se a fome e ganha-se a mente (digo – votos).

De contrapartida, o que esta humilde pessoa (no caso, eu) que se “acha” pensante está vendo é que está próxima a revolta da classe média contra a prefeitura atual (como já ocorre com o federativo, mas sem nenhuma atitude). Somos uma classe média inflada e não existente. Somos pagadores natos e eternos de impostos. Somos pessoas privadas de nossas necessidades por causa do alimento para a cabeça e para a barriga. Somos simplesmente as pessoas que querem carregar os seus equipamentos de trabalho ou diversão dentro do veículo com segurança, sem assaltos, sem TER a miséria na rua (como um problema sanado) e sem sentir o peso da merda sobre os nossos salários de trabalhadores.

Caridades? Poucos fazem - até mesmo os da classe pobre/baixa. Trabalhos sociais? Sempre todos visando lucro. Ongs? Meras instituições de lavagem financeira e fiscal. E aí fica a minha pergunta:

Você vem pra rua jogar dama, ou “vai pra rua” jogar Xadrez?


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